A Revolução vai acontecer. Não sei se esse mês, no próximo,
ano que vem ou daqui a 21 anos, mas vai acontecer. Talvez não seja uma ruptura
drástica e violenta, com guilhotinas e tudo o mais, mas, ao contrário, um lento
processo pacífico e evolutivo de uma mudança sem retrocessos. É difícil afirmar
que não haverá retrocessos, afinal sempre haverá aquelas forças que tentarão
conter qualquer progresso, a fim de manter seus privilégios. O golpe está aí
para provar. No entanto, a crença em um não retrocesso é a mesma que carrego
sobre a possibilidade de uma revolução: o Zeitgeist
mudou e apenas não é mais possível continuar fazendo as coisas da mesma
forma.
Embora seja perceptível os esforços de homens e mulheres das
mais diversas áreas em assegurar uma estrutura que impeça a presença da
diversidade e mantenha seus privilégios privados em detrimento do público, as
pessoas não são mais as mesmas. Se antes era fácil, pelo monopólio da
informação, acesso à educação e instituições, sustentar uma única voz, coerente
e ordenada, agora é mais difícil.
Os parlamentares, juízes, imprensas, empresários brincam com
a vida humana e a população de todo um país como se fosse um boneco inanimado,
sem sangue, ossos e carne. E ainda dizem “acreditem em mim”! Chegamos a um
ponto em que o medo se torna ridículo, absurdo. Mentem como se não tivéssemos
os meios para saber que estão mentindo. Querem nos forçar a acreditar que
convicções bastam, sem mesmo a existência de provas.
Alguns poderes parecem não conhecer o mundo em que vivem. Um
executivo que, em pleno século XXI, diz que as mulheres são importantes para a
economia porque captam melhor a variação de preços no supermercado; não parece
estar falando sério! Ou que governos precisam de maridos para controlar os
gastos, não tem qualquer relação com a época atual. E o legislativo, que parece
estar brincando de lego com a vida alheia, isolado em seu mundo, fazendo leis e
mudando a constituição sem qualquer relação com o mundo do lado de fora. Às vezes
fico na dúvida se acreditam estar vivendo em 1950 ou 1850?
Mas isso é só alguns dos elementos que formam o material
combustível espalhado no terreno. No entanto, de nada adianta um espaço encharcado
de gasolina sem um isqueiro para incendiar toda a área. Falta aquilo que os
estudiosos das revoluções chamam de “gatilhos”, as causas de curta duração. É
isso que faz – apesar de encontrarmos certas condições e de toda confiança e
desejo de mudança – a Revolução apenas uma possibilidade. E isso mais que unicamente
descritivo, faz desse texto também um pouco prescritivo, pois
compartilha esse desejo.
Longe de querer traçar leis para os fenômenos políticos, dois
elementos me fazem otimistas apesar de todas as aparentes derrotas. O primeiro
é a crescente polarização, que atinge o país pelo menos desde 2013
profundamente contra o atual projeto. A escolha de lados e a dicotomização de
atitudes se é ruim para a prática da política e da ética, é um guia interessante.
Torna-se cada vez mais fácil escolher um lado e mesmo muito daqueles que
estavam do outro lado já percebem nitidamente o monstro que ajudaram a criar.
E, agora, devem lutar juntos para combatê-lo, não importa a cor da camisa, em
nome de valores maiores como democracia, liberdade, justiça e igualdade.
Uma teoria que ficou muito famosa dentre os pesquisadores de
revoluções foi proposta por J. C. Davies na década de 1960. Para o autor, a
revolução seria o resultado de um pequeno momento de frustrações e rompimento
na ascensão social, depois de um período maior de crescimento econômico e de
possibilidades. Sem querer dizer que isso é uma pré-condição necessária para a
existência de uma revolução, pois essa permanece sempre uma mera possibilidade,
acho que a teoria formulada pelo sociólogo americano, da Curva J, nos ajuda a
explicar algumas coisas para o momento atual.
Adaptando a teoria a nosso contexto; desde 2002 o Brasil vem
num crescendo que passa pelo
crescimento econômico, a notoriedade internacional (seja pelos blocos, seja
devido aos eventos esportivos), a democratização do ensino superior, entre outras
coisas. O Golpe foi uma tentativa (espero de curto prazo) de conter essa
escalada.
No entanto, essa não será uma revolução como as outras,
amparadas em valores abstratos e racionais, buscando valores universais, mas
uma revolução histórica. Nela todas as vozes silenciadas, as memórias
esquecidas, as formas da diversidade, emergirão para o horror dos mais
conservadores e binários. Nessa revolução não há direitos naturais, mas
direitos conquistados pelas lutas cotidianas contra os possíveis retrocessos e
o atual estado das coisas.
No final do ano passado, a criação do Dia da Mulher Cristã evangélica em São Paulo causou espanto a muitos. O projeto do deputado estadual
Adilson Rossi (PSB) e sancionado pelo governador Geraldo Alckmin pareceu um
absurdo; um contrassenso contra tudo o que está em pauta atualmente na luta da
mulher por mais igualdade e melhores oportunidades. Além disso, por sua
exagerada especificidade, era algo totalmente excludente: Por que não fazer
então um Dia das Mulheres intolerantes a lactose? Ou um dia das mulheres
ruivas? Ou um dia das mulheres praticantes de candomblé?
Certamente o dia 8 de Março, ao se apoiar em uma categoria
mais ampla (mulher), agrega todas elas, seja qual for sua particularidade. No
entanto, essa notícia, que por parecer dissonante à época e dada como pouco
importante, é, ao contrário, um dos fatos mais relevantes da atual conjuntura.
Tão importante que pode ser um elemento chave para eleição de 2018.
No fundo, o que está em jogo é a colonização do espaço
público por interesses privados. Do golpe à eleição americana, 2016 foi um
marco para isso e pautou a política eleitoral e parlamentar. É só ver a votação
do Impeachment na Câmara dos Deputados em que supostos representantes do povo
diziam votar por membros de sua família. Ou, então, podemos pensar nas eleições
municipais em que religiosos ou “gestores” assumidamente privatistas venceram
eleições contra candidatos com projetos e engajamentos com os interesses
públicos.
É esse o caminho da política atualmente. O mundo caminha em
direção ao espaço privado. E a constante afirmação do espaço público como um
espaço caótico e ameaçador colaboram ainda mais para o medo, posturas violentas
e a proteção das certezas domésticas. O voto balizado pela classe social parece
ter sido colocado de lado, não é mais uma suposição válida que pessoas com uma
renda mais baixa votem em partidos de esquerda, preocupados com políticas
sociais e com a diminuição das desigualdades. Ao contrário, é a religião que
parece ter assumido esse papel e não pode ser ignorada. O voto com o interesse
público é substituído pela estabilidade da manutenção dos meus compromissos
privados. Sob essa perspectiva, a criação de um Dia da Mulher Cristã Evangélica
é ponto que precisa ser pensado para além da mera escolha confessional.
E a esquerda tem que estar atenta a esse
fenômeno, caso contrário seremos obrigados a lidar com pastores e religiosos da
bancada da bíblia, que pretensamente se vendem como incorruptíveis por causa de
sua fé (mas sabemos não é bem assim que a banda toca). Não devemos achar que os
absurdos e escândalos que aparecem todos os dias sobre o atual governo sejam
suficientes para garantir a eleição de 2018. Nesse sentido, a criação do “Dia”
deve ser visto como um sinal de alerta. Caso não seja capaz de reconstruir os
vínculos públicos nos próximos anos, a esquerda poderá amargar o absurdo. A
eleição poderá ser decidida por aquela mulher negra e pobre, que encontra mais
afinidade e conforto em seu lar, em sua Bíblia e na sua Igreja evangélica do
que no movimento negro, na rua e no “Manifesto Comunista” ou no “Segundo Sexo”.
Fiquei muito impressionado com o assassinato do estudante da
UFG Guilherme Silva Neto pelo seu próprio pai. Essa é uma daquelas notícias que
você lê e, ao chegar ao fim, atônito e sem palavras, solta um “aonde chegamos”.
Esse, infelizmente, não é o fim de ocasiões como essas. Violências familiares
são muito comuns. No entanto, revela o desenvolvimento de um processo, que
espero estar agonizante; um ponto específico na violenta história entre a
liberdade e autoridade.
Lembrei-me daquela cena do filme “Sociedade dos poetas
mortos” em que o personagem se mata porque o pai lhe proíbe de ser ator.
Lembrei-me que em muitos romances modernos, os dramas individuais são
vivenciados tão em desarmonia com a sociedade que o personagem acaba
encontrando sua redenção na morte. Do suicídio à Auschwitz, de Werther à
Macabeia, de Frankestein ao pedreiro de Construção
a morte se mostra como possibilidade, se não única, frente às opressões do
projeto moderno.
O caso não é o mesmo, mas mostra a herança autoritária que
recebemos. O que está em discussão é a possibilidade da liberdade individual
frente a figuras de autoridade, em que o conteúdo pouco importa frente a uma
forma que, sem argumentos, grita: você sabe com quem está falando? Que na
impossibilidade de aceitar a divergência, prefere a destruição total do outro.
Essa estrutura fica explícita no assassinato do estudante.
Mas pode ser igualmente observada no caso da pediatra que se negou a atender o
filho de uma petista; ou ataques a pessoas que vestiam vermelho. Há uma
crescente insensibilidade ao outro e incapacidade de ouvir e de ver
racionalidade nos argumentos alheios. Em qualquer discussão, vamos cheios de si
e respostas prontas, em que mais do que argumentos, a vitória se mede em
decibéis. Nessa estrutura, a discordância é tida como ofensa pessoal.
O absurdo caso do estudante goiano é emblemático. Não é o
caso do indivíduo moderno que desamparado frente a um mundo opressor e pouco
maleável busca sua redenção e libertação na morte. Não! Ao contrário, é a morte
do individuo que luta e sabe da importância dessa para a alteração de
estruturas e para um bem maior que a tranquilidade doméstica. Quem mata e se
suicida é outro apavorado frente a um mundo diverso e em mutação, em que a
maleabilidade parece ser a opressora daqueles que tinham certezas prontas.
Nesse novo mundo não há espaço para essas certezas gestadas na segurança da
vida e da opinião privada. O tempo da autoridade sem divergência já passou. E,
para esses, só sobra a violência.
Como sempre digo, vivemos em uma época limítrofe em que a barbárie, disfarçada de conservadorismo, como uma fera acuada e próxima do fim, morde mais forte. Mas se o fim parece inevitável, resta saber os danos que pode causar com sua mordida. De qualquer forma ainda dá tempo de pensar e refletir:
aonde chegamos?
Há uma expressão no mundo da política
que diz ser necessário dividir pra governar. A noção aplicada desde a antiguidade
emergiu com força no imperialismo do século XIX. O objetivo seria criar cismas
que enfraqueceriam os governantes e instituições locais, lançando em conflito
entre si os diversos grupos sociais. Em diferentes épocas, essa foi uma lógica
muito comum nas experiências imperiais.
Lembrei-me dessa frase quando ontem vi
uma propaganda na página do Facebook do golpista/conspirador Michel Temer que
dizia “falta pouco para unir o Brasil e fazer um governo sem rancor e sem ódio”.
Em uma provocação na mesma rede social, fizeram um meme que completava: “sem
rancor, sem ódio, sem votos, sem legitimidade, sem vergonha”. Apesar da
brincadeira, acho difícil que uma união aconteça. Afinal, está claro para pelo
menos 54 milhões de pessoas que isso foi um golpe, que se blindou da capa da
legalidade para rasgar a constituição.
Talvez os golpistas estejam alucinando,
mas é estranho falar em união quando só um lado é ouvido. Uma das frases mais
empregadas na votação do dia 17/04 e já esteve na boca de muitos senadores que
disseram votar a favor do impeachment é que é “necessário ouvir a voz das ruas”.
Essa afirmação me deixa confuso e pergunto: que rua? Aquela das manifestações
do pato e da rede globo ou daqueles a favor da democracia e contra o golpe?
Só vale se se vestir de verde-amarelo
com a camiseta da mais que corrupta CBF? O interessante é acompanhar as
manchetes: de um lado estava o povo na rua, de outro os apoiadores do governo.
Uma construção que busca indicar que aquelas manifestações que se levantaram em
todos os Estados do país em favor da democracia não eram povo. A união e
harmonia só é possível quando um lado é totalmente ignorado. Os golpistas
parecem escutar apenas um lado, aquele que o interessa.
Talvez essa harmonia e união venha da
imprensa que forjará um falso consenso. Já é perceptível uma mudança nas capas
da Veja. Não possuem mais aquele teor escatológico de antes. Talvez acreditem
que a consumação do golpe e um governo não-petista seja o mesmo que o fim do
caos. Talvez a união tão pregada pelos golpistas seja a ordem igualizadora, que
apaga qualquer diversidade. Pessoas com deficiência, negros, mulheres, índios,
trabalhadores etc serão apagadas sob o ideal de uma igualdade opressora que
ignora as desigualdades sociais.
Às
vezes eu tenho a impressão de que os políticos estão se divertindo com os
termos que utilizam, ao aplicar certas palavras indicando coisas contrárias ao
que originalmente aquele vocabulário significaria. Além das conhecidas
exaltações à liberdade, à constituição, à democracia e a condenação veemente da
corrupção de um único partido, a palavra da vez parece ser “instabilidade”. Por
conta da revogação da votação do impeachment na Câmara, um senador disse que o
governo e seus aliados só estão querendo gerar mais instabilidade ao país.
É
sério que eles acham que agir conforme as leis é causar instabilidade? Os
golpistas parecem crianças. Já sabemos que desde a eleição de 2014 são crianças
que não sabem perder. Mas, para além das posições políticas, me surpreende a
ingenuidade desse povo que acha que tirar o PT do governo acabará com todos os
males sociais e tudo que pretende dificultar o processo é motivo de pirraça. Se
a Dilma indica o Lula como ministro, não pode é ilegal e fez isso para ter foro
privilegiado. Se acusam o golpe, dizem que o impeachment está na constituição.
Se indicam ilegalidades no processo querem causar tumulto.
O
fato é que o golpe não dá direito de defesa. O cordeiro deve ser levado a
sacrifício sem se manifestar ou tentar evitar o holocausto. Ou melhor, monta-se
um teatro de legalidade, para dizer que a vítima teve direito de defesa. Mas,
como disse José Eduardo Cardozo, essa é uma prática golpista, pois as cartas já
estão marcadas e tudo se resume a mera encenação. Relatores que entregam
pareceres substanciosos de um dia pro outro, proibições de palavras, crimes que
não conseguem ser explicados. Com ares de processo democrático e amparados pela
constituição inventam um impeachment sem crime de responsabilidade. Aqueles que
não conseguiram vencer nas urnas por 4 vezes só podem obter o poder através de
um golpe.
Mas
sério que acham que esse é o caminho mais correto para fazer o país enfrentar a
crise e devolver a estabilidade. Rasgaram a constituição e 54 milhões de votos.
Se a partir de 2015 a crise econômica nos atingiu em cheio, a oposição vez de
tudo para que não conseguíssemos sair dela. Conjuntamente, fomentaram uma crise
política que deixou o país ingovernável. A solução que apresentam é retirar uma
presidenta não acusada de corrupção para colocar no lugar os maiores envolvidos
e políticas de austeridade.
Se
querem estabilidade, se preparem pois não terão. A palavra “golpista” estará
sempre gravada nas testas dos deputados e senadores que votaram a favor do
impeachment. Além do mais, o povo que negou nas 4 últimas eleições o projeto
neoliberal que a tal “ponte para o futuro” defende não vai aceitar facilmente.
Vai ter golpe, e vai ter luta. Pelos direitos trabalhistas, em defesa da
Petrobrás, da educação e saúde pública, as ruas serão ocupadas, certamente.
Aí,
o que restará aos golpistas é dar o toque “militar” do golpe. Com a polícia
oprimindo e rechaçando qualquer tipo de manifestação. A sonhada estabilidade se
mostrará, na verdade, o início de uma guerra civil. E a culpa não estará
necessariamente em nenhum dos lados, mas na imprensa que destilou o ódio e
esqueceu qualquer tentativa de imparcialidade, no judiciário que passou em cima
de leis e preceitos constitucionais, da polícia e suas conduções coercitivas
sem convite para depor, dos políticos que, em busca de seus interesses
pessoais, cagaram para o país, dos empresários (sobretudo a FIESP) que ampararam
a ilegalidade para tornar legal a falta de direitos. Mas, sobretudo, do
Superior Tribunal Federal, que é a instituição pela qual esperávamos que
ordenasse a bagunça e dissesse a justiça.
As
arbitrariedades que o STF realizou ou deixou de realizar nos levou até aqui. A instabilidade
social está no horizonte. Nem um governo golpista terá legitimidade para
governar em paz. Ignoradas a constituição e a democracia, qualquer escolha se
mostra frágil. O que entristece e desaponta é ver que pouco se caminhou de 88
para cá. Não conseguimos criar instituições fortes e democráticas que julguem
de forma imparcial e democrática. E onde a lei não é o rei, só nos resta a
escravidão e as relações personalistas. Falhamos, sobretudo, em criar uma “cultura
democrática”.
O filósofo francês
Gilles Deleuze tem uma definição sobre o que é ser de esquerda e de direita que
gosto muito. Para ele, estar e defender algum desses opostos seria uma questão
de perspectiva, como um remetente de uma carta. O sujeito de direita sairia de
si e se movimentaria em direção ao mundo. Em um deslocamento centrífugo se
afastaria de um pensamento focado em si, sua casa, seu bairro, sua cidade, seu
Estado, seu país, o mundo. O sujeito de esquerda agiria justamente de forma
contrária. Sua consciência repousaria no todo, em primeiro lugar, se
aproximando aos poucos dos interesses pessoais: o mundo, o continente, o país,
o Estado, a cidade, o bairro, sua casa, si próprio. Gosto muito dessa
definição, acho que descreve com perfeição o que está em jogo em adotar uma
posição política.
Lembrei-me muito
dessa explicação na votação do impeachment na Câmara. Aqueles deputados que
votaram pelo sim, diziam agir pela sua família, em nome de sua esposa, em
defesa de seus filhos, pelos seus netos, etc. Outros até exaltavam sujeitos
coletivos, mas, ainda assim, associados a interesses particulares: os militares
do golpe de 1964, os fazendeiros, os produtores do setor fumageiro, os médicos
do Brasil, os evangélicos etc. Diziam votar contra a corrupção e em defesa de
um mundo melhor.
Os políticos de
esquerda que votaram pelo não justificavam sua escolha em defesa dos interesses
dos trabalhadores, das mulheres, dos negros, das pessoas com deficiência, dos
LGBT etc. Setores que certamente serão prejudicados com a consumação do golpe.
Esses dias, no facebook, vi uma postagem que definia bem a situação e por isso
me sinto obrigado a descrever de forma completa. Dizia assim: “Uma aulinha
básica de ciência política: Família é uma instituição do mundo privado.
Deputado é um agente público. Quando o agente público diz que está votando pela
família dele ou de qualquer outro, está explicitando que como agente público
ele defende interesses privados. O certo seria fazer referência a sujeitos
coletivos, portanto, públicos como trabalhadores, os diversos segmentos sociais
existentes na sociedade. O ethos privado suplantando o ethos público é a origem
da corrupção. E você aplaude isso? Me perdoe, mas o tamanho de sua ignorância
política me envergonha”.
Esse é um golpe à
democracia e é acima de tudo um golpe contra todas as conquistas sociais dos
últimos 14 anos. É um golpe contra a CLT, contra a Petrobrás, contra a
universidade pública, o mais-médico, ao SUS etc. É uma atitude autoritária
daqueles que não conseguiram ganhar nas urnas. Como disseno último post, querem de volta
a distinção. Querem um projeto de governo que não possibilite cotas, direitos
trabalhistas, a viagem do porteiro, o estudante no exterior. Querem uma
sociedade hierarquizada e que beneficie unicamente a elite.
Falemos sério: a questão de fato nunca
foi a corrupção, mas o projeto de poder que ela sustenta. Se aqueles que pedem
o impeachment e querem tirar o PT do governo estivessem realmente preocupados
com a corrupção estariam ao menos incomodados com o processo ser conduzido pelo
Eduardo Cunha, pelo fato de o governo ser assumido pelo PMDB. Ficariam
indignados com o sigilo imposto sobre a lista da Odebrecht, com o afinco de
investigar o Lula enquanto escândalos envolvendo outros partidos e políticos
são rapidamente abafados.
Esse discurso do “somos contra a
corrupção, queremos que ambos os lados sejam investigados e presos” é
falacioso. Não porque o princípio esteja errado, ou mesmo seja antiético. Para
uma democracia fortalecida precisamos disso e de que ninguém esteja acima das
leis. No entanto, não é o que acontece na prática. A honrada ideia não deixa de
ser isso, uma ideia. Não quero hierarquizar um partido mais ou menos corrupto,
mas é, no mínimo, de se desconfiar a parcialidade da mídia e do judiciário
brasileiro. O foco massivo em apenas um lado da moeda fortalece os discursos
que colocam um único partido como origem e consequência da corrupção.
Todavia, não é possível alegar
ingenuidade daqueles que querem o impeachment para acabar com a corrupção. Pois
dessa forma não concordariam com a cena burlesca daquela votação na câmara no
dia 17. Ou seja, não é corrupção que incomoda, mas o que se faz com ela. Os
golpistas querem o poder, não para acabar com corruptos e corruptores, mas para
terem de volta o controle da PF, a promulgação de impostos, da escolha de
ministros para o STF etc.
O argumento é que se deve acabar com o
governo petista porque devido à corrupção ele desenvolveu uma maquinaria que
lhe permitisse ficar indefinidamente no poder. Os desvios do dinheiro público
seriam para isso: vencer as eleições. É isso que os “arautos da ética” dizem
defender. No entanto, não é isso que faz do PT um governo que, apesar de todas
as denúncias e perseguições, seja ainda uma opção menos pior do que todo o
resto entre os outros partidos de centro-direita.
Se a corrupção é ubíqua, não escolhendo
lados e partidos, e dificilmente será exterminada, devemos nos questionar o que
de fato ela nos auxilia. O que é melhor, a corrupção que sustenta um projeto de
governo que beneficia a muitos ou a poucos? Será que ela é mais justa nas
contas bancárias no exterior de uns poucos políticos ou em melhorias e prazeres
privados do que aquela que sustenta no Estado pessoas que prezam a melhoria do
público e o maior acesso à saúde e educação a todos?
Os defensores da moral e dos bons
costumes querem realmente o fim da corrupção ou querem a volta de uma estrutura
que trazia benefício unicamente a corruptos? Querem retornar ao poder para
destruir o bem público em benefício próprio. Não interessa se suas atitudes vão
prejudicar o país, o que interessa é o quanto podem receber de empresas em suas
contas. Querem a distinção. A isso criticam os médicos cubanos que se submetem
a ir a áreas pobres acabando com o glamour daquela profissão. Querem o pré-sal.
Dane-se a soberania nacional, dane-se a saúde e educação, dane-se o SUS e a
escola pública. Essas coisas não dão dinheiro. Ao contrário, quanto menos
investimento, menos impostos e mais distintos são aqueles que podem pagar por
serviços exclusivos.
A isso, vê-se que a corrupção não é o
problema. Se fosse, ainda sim preferiria um projeto que beneficiasse a maior
parte da população e não apenas poucos, corruptos ou aqueles que querem manter
seus privilégios. Aqueles que dizem querer seu país de volta, querem recuperar
uma estrutura de poder que mantinha uma sociedade desigual e obediente a seus
superiores. Falar em corrupção é só um bode-expiatório para ocultar as reais
intenções e justificar o golpe, pois ninguém dúvida que aqueles deputados que
votaram contra corrupção votaram em benefício próprio, de sua família, esposa, filhos,
net...
Sinceramente,
eu tenho dúvidas se ainda é possível acreditar em alguma chance de não
acontecer o impedimento da presidenta Dilma. Não que eu não queira com todas
minhas forças que a ordem democrática e a escolha popular das urnas prevaleçam.
Só que, infelizmente, não acredito tanto mais nessa possibilidade (estou aberto
a injeções de ânimo e visões otimista). A questão nunca foi a democracia. Desde
o resultado da eleição (antes até) se elevou contra a Dilma e o PT discursos e práticas
que resultaram na negação da justiça, da constituição e das instituições democráticas.
Vemos
um STF acovardado, que impossibilita a posse de Lula como ministro, permite um
impeachment sem crime de responsabilidade, que deixa solto um cara como Eduardo
Cunha e arquivou qualquer denuncia contra o PSDB. Vemos um TSE que consegue
fazer um malabarismo impensável em que possa condenar unicamente a Dilma e
absolver seu vice da mesma chapa. Observamos atônitos uma prática judicial que
nega qualquer princípio de não culpabilidade sem investigação, em que uma
delação é elevada à qualidade de prova e que prende primeiro e antes de
qualquer investigação séria. Ou seja, a questão nunca foi a justiça.
Assim,
tendo a achar uma ingenuidade (uma posição que eu mesmo tive que me convencer)
de que se pode esperar uma decisão justa e democrática nesse caso. Acho vã
qualquer esperança de que o senado consiga barrar o impeachment ou o STF
intervenha em nome dos preceitos constitucionais. Muitos dos nossos políticos,
empresários, jornalistas e juristas querem uma democracia sem povo. Depois da
burlesca votação do impeachment na câmara fica difícil acreditar que o simples
respeito à constituição pode nos salvar.
Nesse
circo que se apresenta e no qual ao povo parecem relegar um papel secundário ou
de mero espectador, cabe unicamente à população a ocupação das ruas e do espaço
público e o virtual. Vai ter golpe, sim, infelizmente. Gostaria de estar
errado! Mas, não vejo muitas formas de se evitar isso que não seja a
mobilização constante de quem nunca saiu das ruas ou o crescimento e divulgação
da opinião pública internacional contra o golpismo.
Ocupar
as ruas é importante para não deixar o golpe prosseguir. O impeachment da Dilma
é só o primeiro passo. Se os golpistas não se contentarem com uma cabeça
oferecida à multidão, vão continuar no complô jurídico-midiático para acabar
com o PT e qualquer chance do Lula voltar em 2018. Mas uma coisa é certa, com o
golpe se efetivando a esquerda será fortalecida para as eleições municipais.
Isso se aprender duas lições importantes: apesar das diferenças os partidos de
esquerda devem se unir e, principalmente, nunca mais se envolver com partidos
como PMDB, PP etc.
Talvez, o primeiro a responder
positivamente a essa questão tenha sido Maquiavel, no início do século XVI, em
sua obra O Príncipe. Propondo uma
cisão entre ética e política, em que o governante deveria fazer o que fosse
preciso para manter o poder, mesmo que isso significasse ir pelo caminho contrário
ao sugerido pelos preceitos morais, deixou horrorizada uma Europa cristã, em
que, ao contrário, o príncipe deveria ser justamente um símile e condutor dos princípios
religiosos. Tal argumentação certamente foi um dos elementos que propiciou as
bases para a percepção pejorativa que o termo maquiavélico tem, ainda hoje,
entre nós.
Apesar da resistência sofrida por essa
concepção, ninguém duvida de sua vitória. Mesmo que ainda fiquemos horrorizados
com uma política sem ética, hoje a ação política determinada por preceitos
morais e religiosos já não é tão desejada. Inclusive até preferimos que o
privado seja afastado do público, e que opiniões particulares fiquem distantes
dos assuntos sociais. Tem sempre um parlamentar querendo intervir no sexo, no
útero, na roupa, na educação alheia etc. e essa distinção entre âmbitos é o que,
na verdade, nos resguarda. No entanto, há um fator que deveria estar acima de
qualquer opção pessoal: o bem-comum.
Ao contrário, o que percebemos é a
atuação de grupos midiáticos, jurídicos, industriais, sociais etc, querendo
destruir conquistas políticas tardias, em nome de escusos interesses privados.
Não admira que aqueles que querem o Impeachment da presidenta, sejam justamente
aqueles mais denunciados por corrupção. Não é de se surpreender com as
estatísticas de que a maior parte dos que vestem verde-amarelo ganhem mais,
tenham nível superior, votaram no Aécio etc. Em resumo, são pessoas que veem
uma piora em suas condições de vida, isso, todavia, devido à melhora da vida
dos outros. Para esses que sempre tiveram privilégios, a busca por igualdade
significa opressão e um governo mais preocupado com as questões sociais só pode
parecer uma ditadura.
Em verdade, querem a destruição desse
projeto de Brasil a qualquer custo. Querem o fim das garantias trabalhistas, o
monopólio midiático, a privatização dos bens públicos, o silêncio das
diferenças, os privilégios, a distinção da massa da população e, por conta
dessa tal pretensa superioridade, a submissão. E nesse sentido: os fins
justificam os meios? Ao que parece, sim. Mas não de um governante que quer
sustentar seu Estado, ao contrário, de uma elite ávida por reconquistar o poder
perdido. Identificam a perda desse mundo com o PT, o ex-presidente Lula, a
presidenta Dilma, os movimentos sociais com a figura do mal e estão dispostas a
tudo para ter seu país de volta!
Não interessa a opinião dos outros. A
democracia só vale se minha opção prevaleça. As pessoas se admiram com a
presença e participação ativa da população nas manifestações do dia 18 e 31,
contra o golpe e a favor da democracia. Sim, gente, não sei se vocês sabem mas
a Dilma ganhou as eleições e há 54 milhões de pessoas dispostas a defender sua
escolha. Certamente, os golpistas acharam que seria mais fácil derrubar a
presidenta, para terminar as investigações e vender o Brasil. Para se atingir o
objetivo tudo seria permitido, até ignorar os meios.
Vivemos na exceção. Começando pela
perseguição voraz a um único partido e a ocultação de toda corrupção realizada
por outros. Para isso, não é necessário respeitar o comprometimento jornalístico,
a constituição, a ética médica, a opinião dos outros. Corruptos unidos prometem combater a
corrupção. Decreta-se a prisão preventiva ou a tal condução coercitiva antes
mesmo de uma séria investigação ou da pessoa ser notificada a depor. Afinal,
nestes casos, geralmente o acusado já foi determinado, agora só falta o crime,
mas esse é irrelevante.
Por esse pensamento, quem usa vermelho
não é patriota, mesmo que seja contra a desigualdade social e a favor do investimento
público. De verdade mesmo é a FIESP, que pede impeachment e colori seu prédio
de verde-amarelo, o fato dela defender a terceirização e o desmonte da CLT é só
um detalhe e favorece aquele Brasil pelo qual acredita valer a pena. A médica
que negou atendimento a uma mãe petista é louvada pelo presidente de seu
sindicato. A OAB protocola um pedido de impeachment tentando criminalizar absurdamente
ações legais. Ainda bem que ela é uma organização isenta, mesmo não sendo tão
rápida assim para pedir a cassação de Eduardo Cunha e ter apoiado o golpe de
1964.
Justiça? Já ouvi falar. Nesta ditadura
petista em que só petista é preso, a informação e a investigação é totalmente
parcial. Enquanto pedem a prisão preventiva de Lula, para orgasmo da elite e para
espetacularização da mídia, por um triplex e um sítio que nem é dele, Cunha e
sua família estão soltos. Mas cassá-lo ou prendê-lo pode atrapalhar o andamento
do processo de impeachment e inimigo do meu inimigo é meu amigo. Observam o
parecer de Gilmar Mendes como o ícone da justiça e da idoneidade. Quem não te
conhece que te compre. Por isso defendo a discussão política em termos de intenção, não de verdade. O bem público, o comportamento ético, justo e
comprometido não interessa, desde que os fins sejam obtidos. Mesmo que para
isso seja necessário espoliar a população, agir contra a constituição, levantar
a voz, usar de violência e ignorar a legitimidade das urnas, levando junto
todos pilares que sustentam nossa democracia.
Sinceramente,
acredito que na discussão política temos que abandonar, o mais rápido possível,
a noção de verdade e passar a discutir a questão em termos de intenção. Enquanto
acharmos que um órgão, partido ou instituição detém a verdade absoluta sobre
uma questão, daremos margem a autoritarismos e violências. A ideia presente no
Evangelho de João de que basta conhecer “a verdade e a verdade vos libertará”,
tão importante no mundo religioso, pode ser igualmente aplicada para o universo
social, cultural, científico etc.
Por
essa perspectiva, a vida passa a ser percebida como um infinito progresso em
direção ao conhecimento verdadeiro e as épocas e saberes passados como dignos
de serem descritos como meras superstições. Essa estrutura, por exemplo, está presente
na forma que tratamos nossas crianças, velhos ou adversários, tidos como aqueles
que “ainda” estão afastados da verdade, da ciência ou que possuem um saber
anacrônico e ultrapassado. Como uma máscara que esconde a verdadeira pessoa do
ator em cena, a verdade deveria ser revelada para que o essencial fosse capturado.
Retirados os véus que separariam a realidade das aparências, os seres humanos
então poderiam enfrentar de maneira mais sóbria suas reais condições de vida.
Seja por determinação divina ou devido a uma ideologia da classe dominante, toda
ilusão deveria ser retirada para a efetiva libertação e autonomia do indivíduo.
Todavia,
essa percepção muito em voga, tanto na esquerda quanto na direita, pode esconder
mecanismos reais de opressão, pois percebe a guerra pela verdade quase como um
comportamento missionário. Aquele que teve acesso ao conhecimento tem a
obrigação moral de revelá-lo ao outro. O que a um se afigura como uma missão
civilizatória pode, por outra perspectiva, esconder a violência e autoritarismo
presentes nesse processo. O imperialismo foi justificado assim, seja pelo
espanhol que prometia levar o cristianismo ao indígena, seja pelo europeu que
se empunha “o fardo” de levar a civilização à África. Como conclusão, toda exploração
imposta às sociedades coloniais, para que tivessem acesso “a verdade”, é jogada
para baixo do tapete.
Para
isso, o processo é simples. Basta definir o bem, o justo, a liberdade como uma
coisa específica, aprisionando-os em uma categoria e interpretando tudo o que
não é aquilo que defendemos como símbolos do mal, da injustiça e da tirania. Algo
bem comum em nossos dias. Sob tal perspectiva, o mundo é simples, encaixado em
cores binárias e em argumentos tautológicos. Toda a complexidade da vida
é reduzida em exércitos enfileirados em lados opostos: a luta entre o bem e o
mal.
Com
esse pensamento, a categoria se adianta ao discurso, à prática. Assim, é
possível ver pessoas dizendo defender a “democracia”, pedindo intervenção
militar ou se dizendo “patriotas”, por não vestir vermelho, mas apoiando a
privatização do pré-sal e da Petrobrás. Essas, quando argumentamos algo que se
afaste de suas expectativas ou entendimento, querem ganhar no grito, na
violência. Têm um comportamento extremamente autoritário, pois se frustram com
discordâncias e argumentos, querendo nos impor aquilo que definem como “verdade”
goela abaixo, mesmo que seus discursos sejam contrários à ideia que dizem justamente
defender. Não é a verdade que interessa, mas o poder. A realidade se transforma
em uma disputa para revelar quem tem mais força.
Caso
queiramos fugir dessa abordagem, devemos reconhecer que o objetivo não é o
conhecimento verdadeiro, mas entender os mecanismos que permitiram que um saber
se sobrepusesse a outros, em nome da fé ou da ciência. Ou seja, quem definiu
que tal coisa é tal coisa, as intenções contidas na formulação e realização de
um ato e que, de fato, o conflito em torno da verdade é uma guerra pelo poder. Devemos
estar conscientes de que o conhecimento não nos liberta necessariamente, mas é
um objeto em disputa por diferentes sujeitos e discursos.
A
verdade não é algo que precisa ser revelada. Não é um ponto de chegada, mas deve,
ao contrário, ser um ponto de partida. Devemos nos questionar quais são as
intenções que aquelas pessoas têm para defender tal perspectiva, ou os motivos
das omissões e escolhas feitas por determinado povo ou instituição. Por que
utilizam noções como “patriotismo”, “democracia”, “corrupção”, para defender práticas
e discursos que significam justamente o seu contrário?
Ainda
hoje agimos dessa forma missionária em discussões virtuais, mas acredito que
não é a questão. Comportamos-nos como se a verdade estivesse aí para todos
enxergarem e fosse motivo necessário e suficiente para a salvação. No entanto,
às vezes, tal postura é improdutiva, apenas uma perda de tempo. Uma regra que pus
a mim mesmo e que, apesar de escorregar às vezes, tento seguir é: não discuto
categorias, mas argumentos. O outro sempre tentará reduzir seu raciocínio sob
uma categoria: “petista”, “esquerda caviar”, “comunista” etc.
Infelizmente,
em muitos casos, as pessoas acreditam naquilo que já estavam inclinadas a
acreditar no começo, por isso não interessam estatísticas, argumentos etc. A
conversa é inútil. Dessa forma, seria melhor abraçar o caos e ao invés de buscar
a revelação da verdade, devíamos reconhecer que há uma cacofonia de vozes e
interesses em disputa. Nessa perspectiva, acredito que aceitar essa diversidade
é o primeiro passo para fazermos da luta política algo mais produtivo.
Um dos argumentos
defendidos pelos manifestantes vestidos de verde amarelo do dia 13 de março é
de recuperar aquele país que lhe havia sido tomado. O motivo é justo, afinal originalmente
a própria concepção de “revolução”, até aproximadamente o século XVIII, significava um retorno ao ponto inicial. Na
medicina, como na política, um corpo doente, fosse ele o natural ou o estatal,
seria restaurado com o equilíbrio de seus humores, o combate das partes
facciosas e o retorno da ordem antiga, em que cada um sabia exatamente o seu
lugar no mundo.
No entanto, há de se
perguntar: que país é esse que querem de volta? Na última década, o Brasil saiu
do mapa da fome, diminuiu a desigualdade social, investiu pesado em educação
(novas universidades, cursos técnicos, bolsas e financiamentos no ensino
superior, programas de intercâmbio internacional), foi palco de grandes
eventos, como uma Copa do Mundo e as Olimpíadas (isso para ficar só nos
esportivos), se tornou uma das mais importantes economias do mundo. Dessa
forma, seria injusto dizer que alguém defende a volta da fome, da desigualdade,
da baixa relevância econômica etc. Para mim, seria no mínimo, uma falta de
caráter. Apesar que uns defendem Bolsonaro e o retorno da Ditadura - então, vai saber.
Um dos argumentos empunhados
pelos manifestantes do 13 de março é o combate à corrupção e o necessário
investimento em saúde e educação. Assim, me parece um pouco irracional se
levantar contra os governos e o presidente que mais atuou nessas áreas. Desta
forma, vamos deixar claro: o problema de fato não é a corrupção, mas o projeto
político que ela sustenta. A seletividade da mídia, do judiciário, do mundo
político, de empresários e de alguns cidadãos com as corrupções de alguns e não
de outros revela isso. Vivemos em uma época em que falsos moralistas vêm a
público e que corruptos se unem sob a bandeira de lutar contra a corrupção.
Se não seria justo
dizer que aqueles vestidos com a camiseta da CBF (diga-se de passagem, uma das
instituições mais corruptas de nosso país) desejam a volta da fome, da pobreza,
da desigualdade (afinal isso seria um discurso que moralmente não cairia bem
caso viesse a público), resta ainda a dúvida: o que querem então? Sonham com
aquele país em que tinham poder e privilégios, o monopólio do conhecimento e
dos espaços (acadêmicos, geográficos, sociais, econômicos etc). Em que o
aeroporto não parecia uma rodoviária, em que uma viagem internacional ou um
curso superior era símbolo de distinção. Como disse Danuza Leão em sua coluna
na Folha: “Ir a Nova York já teve sua graça, mas, agora, o porteiro do prédio
também pode ir, então qual a graça?"
Desta forma, o que está
em jogo, de fato, é o papel que o Estado deve desempenhar. “Essa gente”
acredita no valor individual como elemento de distinção, seja devido à herança,
poder aquisitivo, posição profissional ou grau acadêmico. Exaltam esforços
individuais como exemplos de superação, ignorando todos os mecanismo de poder e
exclusão existentes. Nas manifestações, tiram fotos com pobres ou gravam vídeos
com negros (quase objetos de exceção, raridades em exposição) para mostrar
que ali não está presente somente a “elite branca”. Na internet ironizam o pão
com mortadela recebido pelos militantes, sem se questionar do filé mignon dado
pela FIESP. Criticam aqueles que chegaram de ônibus fretado por instituições e
sindicatos, sem pensar que em São Paulo o governo (PSDB) liberou as catracas do
metrô. Se fosse um governo do PT facilmente seriam levantadas as acusações de
aparelhamento e utilização da máquina estatal para fins privados.
Assim, veem a atuação
do Estado para consertar qualquer desigualdade (Bolsa família, cotas, programas
habitacionais) como esmola, algo avesso ao esforço individual. Para alguns
privilegiados, os últimos 12 anos representam o declínio da distinção, dos
privilégios e do monopólio de bens e do conhecimento. Agora, viagens e
equipamentos não são mais exclusividade dos endinheirados ou a palavra do “senhor”
atestado de verdade. Não é mais o único detentor do acesso à instrução. Nem a Rede
Globo é a única fonte de informação, seu jornalismo atua contra os interesses
nacionais (por isso sua atuação tão feroz contra o governo e em benefício do Golpe).
A volta desse país
desejado representa o retorno da hierarquia, de uma organização social baseada na dependência. Não desejam a autonomia da população, mas sua eterna
vassalagem, em que a relação desigual imposta gere a gratidão e o compromisso do “inferior”
com aquele percebido como “superior”, tanto política como economicamente.
Querem a volta dos tempos dos coronéis e em que o Estado não impunha tantos
encargos trabalhistas. Sonham com um tempo em que era mais fácil encontrar uma
empregada doméstica, em que o empregado não saía do emprego porque achou
condições melhores em outro local, mas que, apesar da exploração, via na
atitude do patrão um ato de benevolência, e por isso assumia a docilidade. De
verdade, é esse o país que querem de volta. E é esse país que 54 milhões de
pessoas não estão dispostas a devolver.
Segundo o dicionário Houaiss, tautologia, pela lógica, pode
ser definida como uma “proposição analítica que permanece sempre verdadeira, uma
vez que o atributo é uma repetição do sujeito (o sal é salgado)”. Ainda,
segundo a mesma obra, retoricamente é considerada uma “expressão que repete o
mesmo conceito já emitido, ou que só desenvolve uma ideia citada, sem aclarar
ou aprofundar sua compreensão”. Às vezes é assim que me sinto quando tento
debater com certas pessoas.
Adoro conversar com aqueles/as que
problematizam e testam minhas afirmações. Procuro ir para qualquer conversa
munido de argumentos sobre o que pretendo defender, mas acreditando fielmente
que posso sair dali convencido do meu engano. No entanto, para isso, é
necessário ouvir a argumentação do outro lado, a partir de opiniões verossímeis
e socialmente aceitáveis. Ou seja, há de se argumentar. O que infelizmente não
acontece.
Não sei se por falta de educação política ou pura canalhice,
o que tem se tornado cada vez mais comum é o argumento tautológico. Que defino
como um tipo de ferramenta retórica que não visa a compreensão, mas a simples
divisão dos lados que já estavam e eram perceptíveis no início da conversa. Sob
essa perspectiva, não há debate, apenas a ratificação de posições já
disponíveis. Sai-se como no começo, da mesma maneira que se entrou e com a
sensação de tempo perdido. Uma energia intelectual foi gasta por nada.
Como se não adiantasse discutir, você é aquilo que a pessoa
já pensava de você anteriormente e toda sua argumentação cabe em uma caixinha
pintada, ou de vermelho ou de azul. Essa simplificação é uma infantilização de
quem assistiu muito desenho animado, em que só havia dois lados ou o bem ou o
mal. Sobre isso, vale ler a resposta do deputado Jean Wyllys a Rodrigo
Costantino.
O tipo de “argumento” (se podemos chamar isso de argumento)
é quase sempre uma repetição. Repete-se frequentemente invertendo os termos da
oração. Algo como se dissessem: você é burro porque é petista, ou, tentando ser
mais claro, você é petista porque é burro. Ou, como já ouvi, você pensa assim
porque é petista. E, assim, a parlamentação vai.
Naquela situação não pedi uma explicação para essa frase,
pois a resposta fatalmente seria algo como “você é petista porque pensa desta
forma”. Sinceramente, não adianta você explicar que está à esquerda do PT, que
seu pensamento não está fechado em categorias estanques, que o mundo é mais
plural do que vermelho e azul, que você pensa daquela forma devido aos pontos
apresentados e defendidos. Não adianta. Você já foi normatizado dentro de uma
categoria, disponível e compreensível à visão de mundo e intelecto de seu
interlocutor.
Já seria uma pena pela falta de diálogo e debate que esse
tipo de argumentação exige. Mas é pior. Esse tipo de argumentação é a morte da
política. Abre-se espaço para respostas simplistas e salvadoras. Não se escolhe
um candidato pelo que é e pelo que fez, mas unicamente porque ele não é (ou é) o
outro a ser batido. Não se analisa um movimento por suas reivindicações, mas
pelo caos que proporciona ao trânsito.
Com uma educação cada vez pior, o trabalho é assumido por
nossa imprensa. Nesse sentido, o monopólio midiático é muito bem utilizado em
nome do pensamento acrítico. Movimentos inteiros são deslegitimados com uma
palavra: vandalismo. Não se discute. Termos prontos são fornecidos por nossos
telejornais, revistas etc, como se fossem suficientes para explicar conflitos. Tamanha
é a pobreza e desonestidade intelectual de nossa mídia. O Luís Nassif tem um
texto recente muito bom sobre isso:
E são os interlocutores dessa imprensa que encontramos por
aí: arautos do “eu li na Veja”. É difícil explicar coisas complexas a cabeças
que são resquícios de um mundo bipolar em que as coisas eram mais simples.
Russos eram comunistas e americanos capitalistas (ou defensores da liberdade,
que para os mais simplistas é quase a mesma coisa). Homens eram homens e se
comportavam como homens. Mulheres eram mulheres e se comportavam como mulheres.
Para os tautológicos é incoerente um índio usando Nike (a
não ser que tenha se tornado cidadão, como disse um jornalista porto
alegrense). As cotas são uma medida de racismo inverso (não adianta explicar as
desigualdades raciais que encontramos nas universidades brasileiras, nem que a
cota é social, para quem estudou em escola pública). Mulher tem que gostar de
novela e homem de futebol.
Nesse mundo os papéis e lugares estão definidos. Aeroporto
não é lugar de pobre (senão parecerá uma rodoviária). Universidade não é lugar
de negro (um médico negro então! Mas imagina, racismo não existe no Brasil). A
cozinha não foi feita para o homem. Mulher no volante é perigo constante (não
adianta as pesquisas que mostram que os homens são os maiores causadores de
acidente).
Querem um mundo dado, em que tudo já está definido. Argumentos
e construtores destroem o mundo conhecido. Enquanto observam a destruição do
antigo e do conhecido se apegam a identidades fixas e monolíticas; “o homem”, o
“brasileiro”, a “mulher”, o “cidadão”, etc. Identidades e termos que, ao mesmo
tempo, impedem a mudança e deslegitimam o novo. “O mundo sempre foi assim! As
coisas são o que são!”. E a melhor definição de um termo é sua repetição: O
homem é homem. Ou, então, se define pelo contrário: O homem não é uma mulher.
E assim caminha a humanidade. No mundo tautológico, se você
faz uma crítica ao capitalismo, você é comunista. Se se opõe à truculência da
polícia ou à forma de funcionamento do metrô do Estado de São Paulo você é
petista (ou petralha). Se defende uma melhor distribuição de renda, quer tirar
daqueles que trabalharam duro e honestamente. E nisso a simples inversão dos
termos viram argumentos.
Sob esses princípios, o debate político se desenvolve. A
argumentação se resume em apontar erros do “seu lado”, como se as falhas
alheias justificassem às que defende. Vivemos em um mundo de limitadas capacidades
de interpretação de texto e de argumentação. O resultado é o esvaziamento da
política, que traz como consequência a busca por soluções salvadoras,
privatistas e autoritárias.
Mas esses são somente os meus argumentos. Ou talvez eu tenha
dito o que disse por ser um petralha. E por isso, dentro da argumentação tautológica,
nada disso tem valor.
Gravura do frontispício do poema "The World turn'd upside down" de John Taylor
“A liberdade é o homem
que girará o mundo de cabeça para baixo, por isso não espanta que tenha tantos
inimigos”.
G. Winstanley
Esses dias, estava lendo os comentários dessas páginas de
esquerda no Facebook. Geralmente encontramos “miguxos” falando que o
capitalismo é justo, endeusando a Margareth Tatcher e o Ronald Reagan, tentando
justificar que o nazismo foi uma experiência de esquerda, etc. No entanto, para
minha surpresa, vi muitas pessoas se dizendo “ex-direita”. No começo achei
engraçado, porque era algo quase religioso, como se dissessem: Andava mal, aí encontrei
a luz! A graça, todavia, acabou quando lembrei que eu mesmo passei por esse
processo. Comecei a pensar nele e tudo ficou claro!
Acho que nunca fui de direita. Na verdade, nem sabia o que
era ser de direita ou de esquerda. Eu era um roqueiro que me achava muito politizado
por cantar “Que país é esse?”. Hoje vejo com vergonha certas declarações e
canções de alguns músicos. Na mesma época comecei a tocar guitarra, profissão
que havia escolhido. Idolatrava as opiniões dos meus professores de instrumento.
Achava “foda” os comentários do Arnaldo Jabor, etc. Sentia-me um adolescente politizado.
Minha primeira desavença com o Jabor nem foi política, foi
musical. Em decorrência da morte do Dimebag Darrell, antigo guitarrista do
Pantera, ele falou uma merda imperdoável. Comparou shows de rock a missas
negras fascistas e quase disse que o Dimebag foi culpado de seu próprio assassinato,
devido à violência que era pregada nas músicas do grupo. Para quem tocava riffs
como “Cowboys from Hell”, e balançava a cabeça ao som de “Mouth for war” e “I’m
broken”, escutar uma besteira dessas era doído. Sempre escutei Pantera e nunca
quis matar ninguém. Era o típico comentário daquela galera que queria impedir
os vídeo-games porque eram muito violentos, mas não se preocupavam com a
violência do mundo. Veja a reportagem do Jornal da Globo abaixo:
Agora, se ele falava uma idiotice dessas comentando de
música, imagina de política. Mas não pensei nisso, só deixei de escutá-lo (fiz
bem). Mas isso foi fim de 2004 (porra, já vai fazer 10 anos que o Dimebag
morreu!!!). Em 2005 entrei na faculdade de música. Durante todo esse período,
minha leitura mais social das mazelas da sociedade vinha da religião. E, até
por causa disso, minha “ajuda” não ia além da caridade. Era contra políticas
públicas para a interrupção de uma gravidez indesejada, era meio “homofóbico”
(não tinha realmente fobia, desde que gays não chegassem perto de mim), fazia
piadinhas preconceituosas, achava o comunismo um absurdo, pois aprendi na
escola que o capitalismo é que era bom, pois você tinha “liberdade”, etc. E,
assim, caminhava meu pensamento político. Não sei se era de direita, mas pelo
menos era um ignorante, hehe. Tá, eu era um reacinha sim.
Em 2007 entrei na faculdade de história e entrei em crise. Minha
forma unívoca de pensar as coisas era pouco condizente com a diversidade e
pluralidade que as questões eram apresentadas. No começo, achei que teria uma
aula de cursinho um pouco mais alongada. Confesso que fiquei um pouco
decepcionado com o curso e até pensei em trancar. Achava um absurdo ter que
entender o que foi o “Renascimento” para três ou quatro autores. “O”
Renascimento não tinha sido um só? Para mim, era complicado entender que havia
uma pluralidade de opiniões. Mas, enfim, decidi dar uma chance ao curso.
Proferia discursos do tipo: o problema do Brasil é que os
patrões pagam muitos encargos; ah vai, pode ser bicha, mas não precisa se
afetar, etc. Via com desconfiança a camiseta do MST do Cainho (um beijo
Cainho): como assim, usar uma camiseta desses baderneiros que “invadem” a
propriedade dos outros. Mas não dizia nada. Enfim, logo percebi que o que
conhecia da vida havia sido moldado pela mídia brasileira. Ou seja, não
conhecia nada. A sociedade era mais complexa. Para alguém que vinha do interior
de São Paulo, as experiências, contatos e leituras foram fundamentais para a
alteração da minha mentalidade. Um novo mundo se abria!
Naquele ano, ainda, me envolvi com o C.A de história. Além
dos bares, minha formação se deu nas assembleias gerais! Foi um processo muito
importante. Escutava coisas que não concordava, mas levava para casa e refletia
melhor. Era uma ofensa ser chamado de “pelego” e precisava pensar direito antes
de falar. Com minha experiência de professor de música e dos palcos nunca tive
vergonha de falar em público. Então, pegava o microfone e ia à frente falar as
minhas opiniões, que, à época, se ainda não eram totalmente de esquerda, no
mínimo eram diferentes daquelas que tinha antes de entrar na faculdade.
A virada à esquerda tinha sido iniciada. A experiência foi
fundamental nisso. Depois te conviver com muitos amigos gays fantásticos, feministas e de movimentos sociais, deixei de pensar coisas escrotas do tipo: nada contra, mas... A experiência com a
assembleia me fez questionar hierarquias e autoridades. Passei a enxergar que
os de cima nem sempre querem o melhor para você. Enfim, mas ainda faltava ainda
um arcabouço metodológico.
Isso veio com um livro: O
mundo de ponta-cabeça, do historiador marxista inglês Christopher Hill.
Nesse texto, o autor trabalhava asideias
radicais das seitas puritanas durante a Revolução Inglesa. Grupos como os levellers, diggers, ranters, quacres, etc., eram apresentados. Gostava da
época (século XVII), do lugar (Inglaterra) e do tema (Revolução Inglesa). Isso,
mais o fato do meu professor à época (hoje meu orientador) falar que esse era
seu livro favorito me desarmou, mesmo sabendo que era um “historiador
marxista”. Achava que sabia o que ia encontrar lá: alguém tentando mostrar como
o capitalismo era perverso. De fato foi isso que encontrei, mas terminei o
livro concordando com o Hill.
Christopher Hill se propunha estudar a revolução dentro da
Revolução. Ou seja, os movimentos populares que se insurgiram com as novas
possibilidades que se abriram durante as décadas de 1640-1660, mas que foram
reprimidos, depois que o poder político foi conquistado. A típica atitude do “valeu,
obrigado por ajudarem a gente, mas vocês são muito radicais. Então, voltem para
o submundo agora. Não precisamos mais de vocês”. Hoje, vejo aqueles que tentam
cooptar os movimentos sociais para criticar o governo com aquela sensação de “já
vi esse filme”.
Comentário no vídeo "Juca Kfouri e o protesto legítimo de sem teto"
Sempre fui de escrever muito nas margens dos textos que lia,
ainda mais nesse período (2008) em que não tinha muitas referências para
comparar. O mundo de Ponta-cabeça foi
o primeiro livro que li sobre esse tema, que hoje já vão uma iniciação
científica e uma dissertação de mestrado. O fato é que, naquele momento, tudo
era novo para mim. Não apenas o assunto, mas a abordagem. Nisso, as marginálias
denunciam minha busca por tentar entender aquele mundo novo seiscentista. Mas,
mais do que isso, revelam a minha mudança; o momento em que tomei o caminho à
esquerda.
Já li algumas vezes esse livro, assim não sei se as
anotações são da primeira, da segunda, da terceira ou da quarta vez que o li.
Mas só foi necessária uma leitura para tomar o caminho à esquerda. Sei que
alguns comentários são da vez inicial porque há um grande “X” em cima do
comentário. Como se falasse, “você está defecando pela boca, Jota de 2008”.
Além dos meus desenhos engraçados para representar que o rei
Carlos I era considerado o Anticristo durante a guerra civil, os assuntos e as
anotações são diversos. Mas, lembro que o que mais me chamou a atenção e
contribuiu para essa mudança de direção foi a análise que o Hill faz do
movimento digger ou os chamados levellers autênticos.
O livro mostra minha indignação crescente. Em um tópico
sobre as tentativas de acabar com os terrenos comunais e as “justificativas”
ideológicas para isso, escrevi um “que cuzão!” na margem. Era como se as merdas
que vieram posteriormente tivessem tido origem ali. Segundo um autor coevo, “a
existência de terrenos comunais de pastagem... somente perpetua a indolência e
a mendicância dos camponeses pobres”. Sim, esse é um discurso de um inglês
seiscentista e não de um brasileiro do século XXI falando sobre o “bolsa-família”.
Mas como dizia, antes da minha digressão indignada, o
capítulo que mais me chocou foi o sétimo, em que o historiador falava dos diggers, os comunistas do século XVII
como chamou. O movimento é conhecido por tomar a colina de St. George e
implantar ali um sistema de posse comunal da terra.
Levantavam-se contra a opressão dos ricos e nobres, defendiam
discursos igualitaristas baseados na igualdade de nascimento entre os homens,
professavam que a propriedade privada era uma prática anticristã, etc. O
movimento é, sem dúvida, o queridinho de Christopher Hill e o pensamento de seu
líder Gerrard Winstanley, certamente um dos mais estudados pelo historiador.
Chritopher Hill
Winstanley falava contra o mau aproveitamento da terra e de uma
melhor distribuição, coisa que se fosse realizada faria da Inglaterra a nação
mais poderosa. Para ele, democracia política era similar à democracia
econômica. Não poderia haver igualdade em um lugar onde houvesse propriedade
privada. Nisso, a dignidade humana só seria possível dentro de uma propriedade
comunal da terra. Pra mim, criado na mente do “capitalismo é o melhor” era um
pouco chocante essa outra perspectiva. Aí começam os meus comentários/conversas com o texto.
Em uma margem escrevi o seguinte comentário, a respeito de
uma economia comunal: “se não houvesse compra e venda, não haveria avanço
industrial. Ninguém investiria em algo assim para não obter lucro. A não ser
que a indústria fosse regulada pelo Estado, mas a ideia era acabar com o
Estado. Então ficamos ai em uma aporia”. Vergonha do Jota de 2008, que só
conseguia pensar na chave que conhecia. Mas a pergunta era pertinente. Ficar em
dúvida é o que não podia. Mesmo que o Hill não fosse responder, a solução do
problema já se encontrava no próprio texto.
Para Winstanley, a divisão de trabalho existente deveria ser
extinta e recompensas para invenções fomentadas. Segundo indicava, o medo da pobreza
é que impedia inovações. É sintomático pensar isso em nossa sociedade, em que a
necessidade de pagar as contas nos impede de produzir para nós e para o bem e
desenvolvimento da sociedade. De quem é o nosso tempo? De quem é o fruto de
nosso trabalho? Nas palavras do líder digger,
“o poder régio esmagou a inspiração de conhecer e jamais permitiria que esta se
alçasse em toda a sua beleza e plenitude”. Era aquela estrutura que criticava
que impedia o desenvolvimento. Seu pensamento visava o florescimento do país, da
república e de seu povo e não o simples aumento da produção, aos moldes dos
economistas atuais.
Conforme explicava, “a defesa da propriedade e do interesse
individual divide o povo de um país e do mundo todo em partidos, e por isso é a
causa de todas as guerras, carnificinas e pendências que vemos por toda parte”.
O mal era a propriedade privada e, que por isso, deveria ser abolida.
Muito já foi pensado aí, mas esse foi o primeiro momento que
tomei o caminho canhoto e fui ser “gauche na vida”. Lembro-me que após a
leitura desse livro me fazia a pergunta: eu deixaria a oportunidade de ter uma
tv super moderna para que todo mundo tivesse uma igual? A resposta era sim! Pra
quê ter muito, quando se sabe que outros têm tão pouco. Desde então os meus
poros se abriram para discursos à esquerda. Nunca fiz essa confissão publicamente
como os frequentadores da tal página do Facebook, mas a partir daí me tornei um
“ex-direita”.
Esse post parece apenas uma resenha d' "O mundo de Ponta-cabeça" e uma experiência unicamente individual. No entanto, não é. Quis escrever esse texto para mostrar o quanto é fácil criticar coisas que não conhecemos. É muito fácil pensar na lógica do nosso mundo. Quando nos dispomos a ouvir argumentos e aprender outros ponto de vistas se abrem. Infelizmente não é a lógica atual, em que a apresentação de argumentos ao senso comum monolítico é visto como um "bater de frente". Os argumentos se tornam tautológicos: "Você pensa assim porque você é burro. Você é burro porque pensa assim". Argumentos não são necessários porque já há uma ideia formada a priori. Mas enfim, isso é assunto para outro post.
E você quando fez sua travessia? Quando resolveu se posicionar e pegou o caminho da direita ou da esquerda?